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Inteligência Artificial e a “Centelha Divina”

Atualizado: 29 de set. de 2023


Inteligência Artificial e a “Centelha Divina” - Dr Felipe Vigarinho (Neurologista em Jundiaí)
Imagem obtida por IA - https://designer.microsoft.com/

Nessa década, mais que nunca, o ser-humano é rodeado de máquinas, aparelhos e dispositivos, e aprende desde a primeira infância a depender totalmente deles. Basta ver o caos em que se mergulha quando alguém fica nem 24 horas sem energia em casa: a vida parece perder o valor - não se sabe o que fazer sem o celular carregado, sem o computador para auxiliar no trabalho e no lazer, sem a Netflix ao final do dia. Entramos em um vazio existencial, difícil de se preencher. Estou mentindo?


Pois bem, meus amigos. Passada a ressalva filosófica, gostaria de deixar claro que, sim, sou um grande entusiasta da tecnologia. Sinto um pouco a falta das relações humanas? Sinto. Mas que a tecnologia veio para revolucionar a nossa vida, disso não tenho dúvidas – e posso provar.


Manter-se saudável, tanto em nível individual como populacional, é um dos maiores desafios da vida humana. O motivo é simples, apesar de complexo: depende de múltiplas combinações de fatores, como carga genética, comportamentos sociais, costumes sustentados, ambiente externo e interno, acesso a serviços de saúde, iniciativa para fazer check-up e exames como rotina, dentre tantos outros. E com o envelhecimento da população e o aumento da frequência de doenças crônicas, esse cenário torna-se um verdadeiro furacão.


Agora, imagine se conseguíssemos reunir cada um desses fatores em centenas de milhares (talvez milhões) de dados, inerentes à vida de cada indivíduo. Pense em um banco de dados só seu, no qual estariam inseridos cada pequeno detalhe de genética, hábitos, nível socioeconômico, monitoramento de função orgânica e ambiente. E se não somente pudéssemos armazenar, mas também analisar esses dados, de modo a te dizer quais doenças você está predisposto a ter no Futuro? Vou além: por que não pesquisar quais hábitos e medicamentos ajudariam-no a evitar essas doenças? Parece distante ne? Nem tanto: Big Data e AI são partes de um mesmo contexto. Já parou para pensar na quantidade de dados que o seu celular carrega sobre você? Ele conhece melhor que ninguém os seus hábitos, os locais que frequenta, suas preferências – afinal, te acompanha 24h por dia, não? E o seu smart watch, que registra sua frequencia cardíaca, até traçado eletrocardiográfico, hábitos de sono e alimentação, etc etc. E as suas redes sociais... Já estamos vivendo essa realidade, meus amigos – mas em fase de aprendizado.


O setor de Saúde trata de problemas realmente complexos e, todos hão de convir, é uma área de interesse coletivo e universal - excelente oportunidade para a máquina ganhar força e se destacar, ocupando nichos onde a capacidade humana é limitada. Já se vêem no mercado softwares que estudam cada passo da jornada do paciente e buscam eficiência nos serviços de saúde. Outros que garantem rapidez, análise assertiva e em escala para pesquisas clínicas; que apoiam a tomada de decisão em intervenções de saúde populacional; possibilitam acesso à saúde em regiões remotas; monitoram doentes crônicos; propõem-se a auxiliar cirurgias; otimizam os recursos, oferecem auditorias eficientes e reduzem fraudes, etc etc. É um universo de possibilidades.


Isso porque ainda estamos discutindo aqui a chamada Inteligência Artificial “fraca”, cujo papel é armazenar uma grande quantidade de dados e realizar tarefas complexas, sempre focadas no objetivo para o qual foram programadas. É o caso dos serviços de streaming, que aprendem as suas preferências, para tornar as sugestões de conteúdo mais assertivas. Agora, vejam, nos últimos anos temos discutido algo muito maior, uma capacidade muitas vezes superior à humana: máquinas que unem os potenciais “ilimitados” ao aprendizado, e reagem a estímulos, para os quais nem foram programadas. Criam-se verdadeiras redes neurais de conexões, para ganhar escalabilidade, e também características humanas imprescindíveis, como empatia na fala. E já se discute sobre inteligência artificial autoconsciente – que tem consciência não somente do mundo externo, mas de si própria. Isso é muito louco, não acha? E será perigoso? Muitos argumentam que sim.


A OMS possui alguns relatórios divulgados sobre o tema, e deixa claro em seus posicionamentos 6 princípios fundamentais sobre ética e governança de IA para saúde:

  1. Proteger a autonomia

  2. Promover o bem-estar humano, a segurança humana e o interesse público

  3. Garantir transparência, explicabilidade e inteligibilidade

  4. Promover responsabilidade e prestação de contas

  5. Garantir inclusão e equidade;

  6. Promover uma IA responsiva e sustentável.


É altamente entusiasmante o universo de possibilidades que uma inteligência supra-humana pode abrir, claro. Mas acho importante termos princípios, pois é muito fácil se perder. Com esse suporte poderoso, o homem finalmente conseguiria livrar-se de atividades repetitivas, que tiram sua energia, e focar na criatividade, na Arte, na Cultura, no poder da imaginação e da inventividade (se bem que, pasmem, até nesses territórios já temos IAs rs). Mas fato é que nunca se deve deixar de lembrar os motivos para os quais estamos nesse caminhos, quais problemas queremos resolver e como julgamos ser ideal seguir (dentro dos preceitos éticos e razoáveis). Se não tivermos essa visão, realmente de alguma maneira podemos perder o controle.


Obviamente, a IA é um caminho sem volta, com um potencial enorme de uso para melhorar a nossa vida. Mas não vejo máquinas substituindo o homem, ainda. Não acho que a raça humana são as aves para o aeromobilismo (somente um modelo superado, pouco importante). O ser-humano não é algo vazio, que raciocina somente para existir. Concordo com o argumento de que temos uma centelha divina, algo que nos faz poderosos e que, inclusive, nos permite criar algo tão fantástico como a IA. Mas alma não é substituível, meus amigos... nem sentimento verdadeiro. Se algum dia o ser-humano chegar a esse nível de criação, o que acho impossível, isso nos tornaria mais imagem e semelhança do divino, algo ainda mais especial e insubstituível. É um argumento polêmico, eu sei - entretanto, alma não é algo só difícil de provar, mas também de contrapor... Mas esse é assunto para outra conversa.




Sugestões de leitura complementar:

1. Ethics and governance of artificial inteligente for health (WHO guidance; 28 June 2021)

2. Livro: The Society of Mind – Marvin Minsky.

3. Livro: The Second Self: Computers and the Human Spirit - Sherry Turkle.

 
 
 

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